Cartinha 30 - A sua é maior do que a minha
Francamente, minha querida, tô nem aí.
Quando virou competição a quantidade de livros que a gente lê, filmes que vê e tudo o mais?
Eu sempre gostei de anotar o que li e vi, acima de tudo porque eu tenho uma memória ruim, e já aconteceu de eu só me dar conta de que estava revendo um filme, que eu jurava estar vendo pela primeira vez, nas cenas finais. Bem como já comprei livro repetido muitas vezes. Mas também porque eu gosto de saber o que eu faço no meu tempo livre, quanto tempo da minha vida é investido no consulto cultural. Então, sempre anotei, antes em caderninhos, depois no celular, e agora nos aplicativos como Goodreads, TV Time e Letterboxd.
E eu amo a retrospectiva toda bonitinha que os apps fazem no fim do ano, adoro gráficos, gosto de pensar que, caraca, mesmo com todas as horas no ano em que trabalhei igual a profissional autônoma de meia-idade que eu sou, e com todas as horas em que fui mãe de um pré-adolescente, e todas as horas que cuidei dos meus gatos e da casa, e todos os almoços, jantares e cafezinhos com as amigas, eu ainda consegui passar X horas vendo filmes, tantas outras vendo séries e li uma caralhada de páginas. Que coisa boa!
Mas mais e mais tenho visto as pessoas preocupadas com o andamento da meta de leitura do Goodreads, com quantos livros lê por semana ou mês, com quantos filmes fulana assiste.
Claro que é só mais um sinal de como estamos vivendo a vida. Tudo acaba virando números, até arte, até nossos hobbies, até o que supostamente estamos fazendo por prazer, para respirar, para buscar inspiração para novas ideias, para tentar entender a vida, sei lá — menos para virar competição de número.
Toda vez que posto no Instagram meus lidos do mês, uma ou mais pessoas comentam (no post mesmo, mas em maior número numa mensagem privada) como eu leio bastante, como queriam ler como eu. Já pensei em parar de postar coisas assim, mas por que eu deveria parar de falar de algo que me dá tanto prazer?
(Um parênteses aqui para dizer que eu criei essa conta no Instagram para publicar resenhas e tentar parcerias com editoras e agências e conseguir receber livrinhos para resenhar, mas cada diz mais vejo que quem faz sucesso e ganha views são moças bonitas, de batom vermelho e short bem curto, sentadas de maneira estratégica, e eu passei da idade de tudo isso aí. Mas isso não é assunto pra hoje.)
Também me perguntam como faz para ler tanto. Se eu não estou num dia bom, digo que devo ter tempo de sobra, entre meus dois trabalhos, filho, cinco gatos e tudo o mais de que eu dou conta sozinha. Ou digo “eu pego o livro, abro e leio”. Quando estou num dia de um pouco mais de paciência, não sei o que dizer, a verdade é essa, porque parece que existe um milagre, uma técnica, um método para eu “ler tanto” e que eu deveria revelar esse segredo para todo mundo que quer bater a meta do Goodreads.
Mas a verdade é que uma de minhas respostas mal-humoradas é, também, a verdadeira: eu abro um livro e leio. Leio até quando dá vontade, até a hora do próximo compromisso, até bater o sono, sem contar páginas, sem meta, sem objetivo maior que não seja a história diante de mim.
Eu leio rápido, assim como eu digito, traduzo e reviso rápido. Isso é uma característica minha. Tem tradutoras com os mesmos anos de experiência que eu e que produzem metade do meu volume, e isso é dela. Tem coisas que a gente pode, com o tempo, aprender a agilizar e acelerar, outras não. Tem coisas que valem a pena tentar agilizar, outras não. Para o meu trabalho, é vantajoso e lucrativo eu ser rápida, é um extra que alavancou, sim minha vida profissional. Mas na leitura a única “vantagem” é que eu leio, sei lá, dez livros num mês em vez de um ou dois, mas para mim não faz diferença porque, quando estou lendo, não estou pensando na meta.
Assim como eu tenho amigas, solteiras, sem filhos, que podem assistir ao filme que querem, em qualquer dia da semana, sem se preocupar com classificação etária e com programa para a família, e que veem vinte vezes mais filmes do que eu. E tá tudo certo. Eu já fui a pessoa que podia passar uma tarde no cinema e via 3 ou 4 filmes numa tarde, agora não sou mais. Eu tenho a opção de me comparar a elas e sofrer, ou apenas ver os filmes que eu quero quando dá, ver outros com meu filho e alguns não ver nunca, ou quem sabe um dia. Não importa.
Falei demais, a cartinha ficou mais longa do que eu gostaria, então vou arrematar dizendo que eu espero que a gente consiga ler por prazer, ver filmes porque quer, ver séries porque sim, que a gente não se importe com quanto mas sim com o como, o porquê e, principalmente, com o que isso causou em nós.





O ódio que eu tenho de transformarem todos os nossos hobbies e prazeres em venda e produtividade. Eu também leio bastante e leio rápido mas é porque gosto, porque sempre tenho um livro comigo e leio em salas de espera de consultório, horário de almoço no trabalho, etc etc, e é isso que você falou, a técnica é abrir o livro e ler! Eu amo anotar os livros que leio mas por uma questão de poder laaaa na frente olhar para trás e ver que “olha só, esse livro eu li em 2022”, sim viciada em criar memórias hehehe. Eu vejo muito filme também, porque amo, porque me faz feliz e é isso, queria muito que as pessoas parassem de querer capitalizar em cima de qualquer coisa que gosta
É desesperador isso de querer deixar tudo produtivo, tudo otimizado, tudo com metas a bater e a melhorar no próximo quartil